Microsoft e Proofpoint desmantelaram nesta semana o ecossistema criminoso de língua chinesa que sustenta o phishing de maior volume do planeta: a loja underground YAM Store e os kits CoGUI, CoAceV, CoFish_Ws e Iron Man System. A ação, conduzida em processo civil na corte federal da Flórida com apoio do Japan Cybercrime Control Center, da Cloudflare, da Resecurity e do Health-ISAC, apreendeu e redirecionou domínios usados pela rede, que habilitou mais de um bilhão de mensagens para mais de 75 mil organizações desde janeiro de 2026. Para a equipe de defesa, a decisão prática imediata não é comemorar o takedown: é auditar tenants de nuvem abandonados, registros de aplicativo e principais de serviço, porque era exatamente essa infraestrutura legítima roubada que dava escala ao crime.

Como a rede opera

O relatório técnico da Microsoft divide o trabalho da YAM Store, rastreada como Storm-3119, em cinco estágios. Começa com reconhecimento automatizado: um utilitário escrito em Flask identifica tenants do Microsoft 365 com oportunidades de inscrição, dados de licenciamento e informações de Azure, operando anonimamente via Tor. Quando um ambiente viável aparece, o ator assume o controle com painéis administrativos próprios, implementados em PHP, Java/Spring e Cloudflare Workers.

O ponto central para o defensor está no segundo estágio. Usando o client secret roubado do ambiente em um fluxo de autenticação apenas de aplicativo, o painel do invasor obtém controle total do diretório: ele reseta senhas em silêncio, sem forçar troca no próximo login, atribui licenças de educação e concede atributos privilegiados que monetiza depois. A YAM Store sequestra tenants do Microsoft 365 e do Azure for Education e revende contas, licenças e armazenamento roubados como serviço para operações de phishing. A persistência fica ancorada no aplicativo, não em uma sessão de usuário — por isso sobrevive a trocas de senha e é mais difícil de detectar.

No terceiro estágio, o ator entra com uma conta de administrador global comprometida e provisiona o service principal do PnP Management Shell dentro do tenant. Com ele, concede a si mesmo permissões amplas do Microsoft Graph, incluindo AppCatalog.ReadWrite.All e controle total da API do SharePoint. O SharePoint e o OneDrive do ambiente roubado viram hospedagem em massa das páginas de golpe, e o armazenamento sequestrado se transforma em produto no underground.

Os estágios finais completam o negócio. Uma plataforma própria de gestão de DNS centraliza domínios de phishing, certificados SSL e roteamento via Cloudflare, e uma loja automatizada revende tudo, com pagamentos em Alipay, WeChat Pay e USDT na rede TRC20, além de nível de subrevendedor. A Microsoft também documentou organizações fraudulentas criadas do zero, provavelmente com conteúdo gerado por IA, para obter tenants com aparência institucional legítima.

Os números da operação

Os kits do cluster Storm-2990 — CoGUI, Haozi e Iron Man System, mais os aparentados CoAceV e CoFish_Ws descritos pela Proofpoint — se passaram por 66 marcas diferentes, a maioria japonesa: Amazon, PayPay, MyJCB, Apple, Rakuten, SMBC, DHL e o serviço de transporte Yamato entre elas. A Proofpoint registrou cerca de 17 mil domínios únicos usados pelos três kits aparentados desde o início do rastreamento, com 1.081 campanhas e 13.586 domínios só para o CoGUI. Entre 1 de julho e 17 de setembro de 2026, os três kits giraram 3.788 nomes de domínio completos — sinal de capacidade industrial de comprar e gerenciar infraestrutura.

O volume é o dado que importa para o gestor de capacidade: a Proofpoint detecta e bloqueia mais de 100 milhões de mensagens por mês apenas do kit CoGUI. Na média da série histórica, o kit rodava cerca de 50 campanhas por mês, cada uma concentrada em janelas de três a cinco dias.

O kit Iron Man System

Anunciado na YAM Store a partir de junho de 2026, o Iron Man System é a ponta mais recente do cluster. Os templates do kit imitam organizações legítimas de governo, finanças e logística em vários países, com páginas de destino que copiam serviços de tecnologia, streaming e corretoras. As iscas observadas incluem cobranças de pedágio pendente e multas de trânsito — temas que funcionam em qualquer país e que se traduzem sem esforço para marcas locais.

Do lado da vítima, as páginas usam técnicas de evasão herdadas do CoGUI: geofencing para exibir conteúdo só nas regiões-alvo, filtragem de cabeçalhos e fingerprinting do navegador para recusar sandboxes e sistemas automatizados de análise. Em várias campanhas, um CAPTCHA aparece antes da página falsa de login, o que basta para enganar a vítima e atrapalhar o crawler de segurança.

O que muda para o Brasil

O foco histórico dos kits é o Japão, mas a infraestrutura vendida pela YAM Store é global: a Microsoft lista saúde, serviços financeiros, distribuição atacadista e tecnologia entre os setores afetados no Japão, nos Estados Unidos, na Austrália e na Índia, e a Proofpoint registrou campanhas também nos Estados Unidos, Austrália e Itália. O risco que atravessa fronteiras não é o template em japonês; é o modelo de negócio: tenants legítimos roubados dão reputação de envio à mensagem fraudulenta, e domínios recém-registrados com boa aparência barateiam o ataque.

Para quem responde a fraude no Brasil, o padrão já é familiar dos golpes de impostação financeira, como os pedidos falsos por Pix que imitam bancos e instituições. A diferença é que, no ecossistema YAM Store, o criminoso compra a infraestrutura pronta por criptomoeda, sem precisar saber operar um servidor.

Sinais a monitorar

Sinal Onde olhar Risco
Service principal do PnP Management Shell criado sem chamado Log de auditoria do diretório Persistência de aplicativo no tenant
Reset de senha silencioso, sem exigir troca no próximo login Eventos de atividade de diretório Fluxo apenas de aplicativo com client secret roubado
Licenças de educação atribuídas a usuários inesperados Relatórios de licenciamento Monetização de tenant sequestrado
Upload em massa no SharePoint ou OneDrive Relatórios de uso de armazenamento Hospedagem de páginas de golpe
Novo tenant com domínio recém-registrado imitando ONG Monitoramento de marcas e domínios Instituição fraudulenta criada para obter ambiente
CAPTCHA antes da página de login e recusa de navegador automatizado Campanhas reportadas por usuários Kit com fingerprinting e geofencing

Ações P1 e P2

P1 — inventariar e girar credenciais de aplicativo. Liste todos os registros de aplicativo e service principals do tenant, identifique client secrets e certificados sem rotação recente e troque os que não têm dono conhecido. Revise permissões do Microsoft Graph concedidas a aplicativos, com atenção a AppCatalog.ReadWrite.All e controle total do SharePoint. Verifique se existe service principal do PnP Management Shell provisionado sem justificativa e remova.

P1 — auditar tenants legados. Ambientes de educação ou sem fins lucrativos desativados, mas ainda ativos no provedor de nuvem, são o alvo preferencial do Storm-3119. Decida entre encerrar formalmente o tenant ou reduzir privilégios ao mínimo; a opção padrão deve ser encerrar.

P2 — planejar defesa contra infraestrutura legítima. Como o envio pode vir de domínios de nuvem legítimos, filtros baseados só em reputação de domínio falham. Combine verificação fora do canal — o usuário confirmar o pedido por contato conhecido antes de agir — com alertas para resets de senha sem interação do usuário. Se credenciais de clientes ou funcionários já caíram em golpes, o caminho prático para o titular é o mesmo do verificar vazamento de dados sem entregar mais dados.

P2 — planejar para o próximo kit. O takedown apreendeu domínios, mas o código dos kits e os desenvolvedores seguem no mercado. Trate a campanha atual como interrupção temporária e mantenha a detecção atualizada: as regras públicas da Proofpoint para páginas de destino CoGUI servem de base para busca ativa em logs de proxy e DNS.

Fontes