O ataque à ConnectWise derrubou o backup em nuvem de milhares de clientes e revelou uma operação maior: a Microsoft atribui ao grupo alinhado ao Estado chinês Storm-0940 uma campanha que uniu o framework de IA agêntica ARTEX ao comprometimento da cadeia de suprimentos do ConnectWise Cloud Backup, antigo SkyKick. O golpe atinge em cheio organizações que concederam permissões a aplicações OAuth do produto dentro do Microsoft 365, com destaque para provedores de serviços gerenciados e seus clientes finais. A ação prioritária é manter as conexões do aplicativo afetado desabilitadas, revisar as entradas de entidades de serviço nos logs do Entra e preservar evidências antes de alterar qualquer configuração.

O que aconteceu

Os primeiros sinais públicos apareceram em meados de outubro. Entre os dias 10 e 14, a telemetria da Microsoft registrou um borrifamento de senhas automatizado contra contas corporativas; em 15 de outubro, surgiram relatos públicos sobre o comprometimento do aplicativo de backup em nuvem, com indicadores que apontavam para a mesma faixa de rede observada antes. No dia seguinte, o acesso não autorizado foi confirmado em 16 de outubro pela ConnectWise, que desligou o acesso das aplicações do Cloud Backup como proteção e classificou o caso como questão de segurança. Às 07:00 UTC de 17 de outubro, a fornecedora desabilitou as sete identidades de aplicação listadas em seu guia técnico e revogou os certificados usados nas conexões afetadas.

Em 21 de outubro, a Microsoft publicou a atribuição formal: o Storm-0940, ativo desde 2021 e historicamente voltado a roubo de dados via password spray e exploração de aplicações expostas, foi o responsável pelo comprometimento da aplicação multilocatária. A campanha com o ARTEX visou centenas de organizações no mundo inteiro, incluindo setores como aeroespacial e defesa, automotivo, químico, energia, serviços financeiros, governo, jurídico, manufatura, mídia, militar, semicondutores, software e fundações de pesquisa. A Microsoft ressalva que a atividade não decorreu de comprometimento ou vulnerabilidade em sistemas, produtos ou serviços da própria Microsoft.

A novidade operacional foi a escala. Agentes autônomos do ARTEX operaram em ritmo de máquina, autenticando em ambientes de clientes por meio de aplicações que já tinham acesso concedido, sem necessidade de entrada interativa de usuário. O tempo entre a seleção de um alvo e o acesso privilegiado caiu para uma janela em que um processo humano típico de triagem de alertas já nasce atrasado.

Como o ataque funcionou

A cadeia começa fora da rede da vítima. O atacante comprometeu credenciais de aplicações do Cloud Backup, material de autenticação OAuth com privilégios amplos concedidos por milhares de tenants. Com essas credenciais, os agentes autenticaram diretamente contra o Microsoft 365 no modo somente aplicação, um fluxo legítimo que não gera entrada de usuário e costuma ter monitoramento mais fraco nas operações de segurança. É o mesmo tipo de abuso de identidade confiável visto em outros incidentes recentes de plataformas Microsoft, como a campanha que roubou e-mails via EWS.

Depois da autenticação, o tráfego seguiu para o Microsoft Graph: reconhecimento do diretório, consulta de identidades privilegiadas e, em vários ambientes, modificação de credenciais da própria aplicação comprometida para garantir persistência. A Microsoft descreve casos com menos de 3 horas entre a escolha do alvo e o acesso privilegiado. A troca de credencial feita pelo agente pode continuar válida mesmo depois da correção do aplicativo original, funcionando como porta dos fundos em outras identidades, credenciais e serviços de nuvem.

O ARTEX é um framework aberto de teste de penetração, escrito em Go com interface em Next.js, que orquestra múltiplos agentes de linguagem do reconhecimento até a exfiltração com pouca intervenção humana e acumula os ativos descobertos em um grafo. Para o defensor, o que muda não é a sofisticação de cada técnica isolada, porque borrifamento de senhas e abuso de OAuth já são velhos conhecidos, mas a velocidade e o volume simultâneo de tentativas, que comprime o tempo de reação a minutos.

Números da campanha

Os dados divulgados dimensionam as duas frentes: o borrifamento de senhas que antecedeu o incidente e o movimento sobre os tenants conectados ao produto comprometido.

Indicador Valor observado
Contas visadas no borrifamento (10 a 14 de outubro) 327 contas em oito organizações
Falhas de autenticação registradas Mais de 151.000 eventos
Pico de falhas por minuto (11 de outubro) 2.900
Contas com mais de 1.000 falhas 48
Tenants atingidos na fase seguinte Mais de 2.250
Ritmo de tentativas na fase seguinte 2.900 entradas por minuto
Entradas em menos de 4 minutos Mais de 200, com 4 credenciais de aplicação

Nos dias 10 a 14 de outubro, a infraestrutura do grupo rodou o password spray contra 327 contas com mais de 111.000 falhas concentradas em um único dia. Ainda assim, a Microsoft não observou nenhuma autenticação bem-sucedida nessa frente: quase 98% da atividade resultou em resposta de bloqueio de conta. O dano veio pela outra porta, a das credenciais de aplicação roubadas do fornecedor, que dispensaram senha de usuário.

Sinais a investigar no tenant

Um checklist de caça direto ao padrão descrito, executável no centro de administração do Entra:

  • Entradas de entidade de serviço: abra Monitoramento, Logs de entrada e a aba de entradas de entidade de serviço; filtre pelo Application ID indicado no guia da ConnectWise, cujo indicador público inclui 506e08f9-6e9a-4da4-942b-a099a03644ae. A aba padrão de entradas de usuário não mostra essa atividade.
  • Endereços de origem fora do esperado: o tráfego normal do produto sai por faixa privada do Azure; entradas de endereços como 144.172.64.128 merecem investigação imediata.
  • Atividade no Graph após entrada de aplicação: reconhecimento de diretório, leitura de identidades e grupos logo após uma entrada somente aplicação.
  • Mudanças de credencial ou permissão: nova credencial adicionada a uma aplicação existente, alteração de papel privilegiado ou consentimento novo formam o padrão de persistência descrito.

A presença do aplicativo afetado, ou mesmo uma autenticação bem-sucedida dele, não prova acesso ou exfiltração de dados; a própria Microsoft faz essa ressalva. A gravidade se define pela combinação da entrada com atividade posterior no Graph e no diretório. Clientes do Defender XDR contam com detecções e consultas de caça prontas para atividade suspeita no Graph e infraestrutura conhecida.

Ações prioritárias de contenção

P1, agora: mantenha as conexões do aplicativo afetado desabilitadas até instrução formal de restauração da ConnectWise; não exclua a aplicação corporativa como primeiro passo, porque a exclusão destrói evidência e pode quebrar dependências; inventarie os IDs de aplicação citados no perfil da Microsoft e registre o Object ID local de cada entidade de serviço; correlacione entradas de entidade de serviço com chamadas do Graph e mudanças de diretório, separando atividade administrativa autorizada.

P2, na sequência: revise e reduza permissões de todas as aplicações OAuth com privilégios amplos no tenant, pelo princípio do menor privilégio; acelere a revogação de tokens e sessões de aplicações suspeitas, mecanismo que a própria Microsoft reforçou no Entra e que já abordamos ao cobrir a revogação acelerada de sessão roubada; documente a linha do tempo para eventual comunicação de incidente.

Para quem usa o produto: a restauração faseada anunciada em 28 de outubro exige senha nova, configuração de MFA e reautorização de cada tenant do Microsoft 365 em um novo aplicativo endurecido, o ConnectWise Cloud Backup for M365. Reautorizar não substitui a investigação de cada tenant, e reautorização isolada não confirma que backups voltaram: verifique se snapshots novos completam com sucesso depois da reconexão. A ConnectWise afirma que os arquivos de backup existentes permanecem criptografados e isolados, sem indicação de comprometimento, e que não há indicação de impacto em outros produtos da empresa.

Fontes