Um consórcio de agências de cibersegurança liderado pelo FBI e pela CISA publicou em 8 de outubro de 2026 o alerta conjunto AA26-281A sobre atores de ameaça vinculados ao governo chinês. O documento atribui à Integrity Technology Group, empresa chinesa com fins lucrativos, o papel de habilitar invasões que combinam varredura automatizada, botnets de grande escala, software de VPN e técnicas living-off-the-land para roubar e-mails e credenciais de organizações em vários continentes. Os alvos incluem serviços governamentais, manufatura, saúde e tecnologia nos Estados Unidos, além de organizações da área de aplicação da lei, de educação e religiosas, com vítimas no Sudeste Asiático, na África e na América do Norte. Para uma equipe defensiva, a prioridade é objetiva: inventariar clientes de VPN nos endpoints e revisar acessos anômalos aos protocolos de webmail corporativo.

Como o fornecedor opera

A Integrity Technology Group não é um grupo de extorsão: é uma empresa que adquire e constrói ferramentas de invasão para uso próprio e para venda, hospeda infraestrutura e sustenta invasões rastreadas como atividade maliciosa de origem chinesa. Segundo o alerta, os atores por ela habilitados usam táticas compatíveis com as atividades publicamente conhecidas como Flax Typhoon, Ethereal Panda e Red Juliett — com a ressalva expressa dos autores de que o rastreamento de empresas privadas não corresponde um a um ao do governo americano. O portal já detalhou como o Flax Typhoon mantém acesso com clientes VPN disfarçados; o alerta novo amplia essa evidência com ferramentas, domínios e indicadores próprios, colhidos em investigações do FBI.

Da varredura à credencial

A operação começa barata. Ferramentas abertas de varredura como masscan, dirsearch, wpscan, NMAP e Fscan procuram serviços expostos, com foco nas portas 21, 22, 53, 80, 443 e 1080 e na enumeração de páginas PHP e ASP. Desde 2017, os atores também usam a aplicação Python MicroScan, um painel web com um acervo de mil e trezentos scripts de teste de invasão voltados a serviços como Oracle WebLogic, Jenkins, WordPress e Apache Struts. A leitura defensiva é direta: a cadeia depende de falhas antigas e conhecidas — as oito CVEs listadas no alerta vão de 2014 a 2023 — e não exige dia zero, então superfície exposta e correção em dia resolvem a maior parte do risco de entrada.

Com o alvo escolhido, a credencial sai de dois caminhos. O primeiro é um payload de cross-site scripting recuperado pelo FBI: executado em um site vulnerável, ele injeta campos de usuário e senha na página e, depois do preenchimento, entrega um arquivo.zip protegido por senha contendo o executável live700_v1.exe. Esse binário inicia um processo com o mesmo nome do componente legítimo DiagTrack.exe do Windows e estabelece comunicação cifrada por HTTP com o domínio dns.studiocloud.xyz, atribuído à Integrity Tech, com funções voltadas a consultar caixas de correio. O segundo caminho é o EBurst, ferramenta Python aberta que faz password spraying e adivinhação de senha contra contas do Microsoft Exchange por múltiplas interfaces — ECP, EWS, OWA, Autodiscover, MAPI e ActiveSync, entre outras listadas no readme da própria ferramenta.

Persistência disfarçada de VPN

A etapa que mais interessa ao triage de endpoints é a persistência. Os atores instalam clientes do software de VPN aberto SoftEther nos dispositivos comprometidos, baixando os instaladores com PowerShell ou binários nativos no Windows e com curl ou wget no Linux. O cliente é configurado para reconectar automaticamente na inicialização e, em vários casos, os instaladores recebem os nomes conhost.exe ou dllhost.exe para se assemelharem a executáveis comuns do Windows. Como o SoftEther é um produto legítimo, o alerta observa que ferramentas de detecção de endpoint têm menos chance de marcá-lo. O resultado é um túnel persistente, difícil de atribuir, que serve de rota para comando e controle e para a exfiltração posterior — e que sobrevive a reinicializações e a limpezas rasas.

O duto de exfiltração

O produto final da operação é o e-mail. Os atores organizam bases roubadas com nomes discretos — 001.gif, Css.js, Include.png — para dificultar a identificação dos pacotes de dados. O componente mais revelador é o script PHP Curlc4.txt, um bot que conversa com a API EWS da Microsoft para ler mensagens, calendários e contatos, procura um diretório gravável no servidor web comprometido, renomeia o processo filho para crypto e comprime — às vezes cifrando com RC4 ou AES-128-CBC — os e-mails antes de enviá-los ao domínio natcloudservice.com. Em paralelo, o utilitário de linha de comando office-cli acessa contas do Outlook 365 de forma contínua usando arquivos de configuração com client_id, tenant_id e secret, ou seja, credenciais de aplicativo legítimas; o alerta destaca que o programa evita detecção justamente por usar métodos de acesso legítimos. Para o Active Directory, o DC.exe executa a técnica DCSync por RPC e copia credenciais, membros de grupos e relações de confiança do controlador de domínio. Os autores ainda mantêm uma aplicação web que revende o conteúdo roubado a terceiros e, em parte dos casos, restringiram o acesso aos dados a endereços IP de Xiamen, na China.

Checklist de caça imediata

A tabela abaixo condensa os sinais que o alerta sustenta com evidência técnica e onde procurá-los. Trate os itens P1 como critérios de parada: qualquer positivo exige isolamento do host e abertura de resposta a incidentes antes da limpeza, para não destruir evidência de escopo.

Sinal Onde procurar Prioridade
Processo chamado conhost.exe ou dllhost.exe fora dos diretórios do sistema, mantendo conexão de saída persistente Inventário de processos e linha de base de tráfego nos endpoints P1
Consultas DNS ou conexões a domínios citados no alerta, como natcloudservice.com e dns.studiocloud.xyz Logs de DNS resolvido e de firewall de perímetro P1
Acessos a EWS, OWA e Autodiscover em horários atípicos ou de endereços incomuns Logs de autenticação do Exchange e do webmail P1
Replicação inesperada do Active Directory, padrão DCSync, por conta sem papel de replicação Monitoramento dos controladores de domínio P1
Arquivos.zip criados em diretórios graváveis do servidor web com nomes de imagem ou de script Auditoria de /var/www e de diretórios de upload P2
Aplicativos conectados ao tenant com client_id e tenant_id sem dono declarado Revisão de consentimento de aplicativos na nuvem P2
Volume alto de upload em estações de trabalho que normalmente só baixam Linha de base de tráfego e alertas de anomalia P2
Enumeração de páginas PHP e ASP e tentativas de injeção ou traversal Análise dos logs de acesso das aplicações públicas P2

Contenções com efeito real

As mitigações do alerta seguem os Cross-Sector Cybersecurity Performance Goals da CISA e do NIST e têm cabeçalho claro: exigir autenticação multifator em webmail, VPN e contas com acesso a sistemas sensíveis; desativar serviços e portas não usados, incluindo acesso remoto e protocolos de compartilhamento; substituir senhas padrão; e aplicar correções em dia, já que a invasão depende de falhas conhecidas. Na detecção, o documento pede monitoramento do uso não autorizado de ferramentas nativas — a essência do living-off-the-land — e da replicação anômala do Active Directory. Telemetria de criação de processo no estilo do Sysmon ajuda a enxergar instaladores renomeados e processos com nome de componente legítimo do Windows.

Na camada de aplicação, sane a entrada do usuário para eliminar injeção de XSS — o vetor que transforma sites vulneráveis em coletores de credenciais — e monitore as contas em nuvem atrás de aplicativos conectados com acesso a e-mail e arquivos. Segmente a rede para que um host comprometido não alcance recursos de outra unidade, monitore volumes anormais de tráfego de saída e mantenha cópias de backup protegidas e fora do alcance do sistema original. Se a caça confirmar comprometimento, o alerta recomenda isolar os hosts, coletar evidência antes de expulsar o ator e montar o plano de despejo com a ferramenta de estratégias de evacuação da CISA, que mapeia contramedidas às táticas do invasor. Por fim, exercite os controles existentes contra as técnicas mapeadas no MITRE ATT&CK citadas no documento — testar detecção é parte do ciclo, não um extra.

Fontes