O grupo ransomware Gentlemen opera uma suíte de ferramentas chamada GentleKiller, capaz de desativar mais de 400 processos de 48 softwares de segurança, incluindo Microsoft, CrowdStrike e Kaspersky. Revelada pela ESET em junho de 2026, a ameaça já vitimou 504 organizações na Ásia, Europa e Américas.

Ativo desde março de 2025, o Gentlemen funciona como ransomware-as-a-service (RaaS) e se consolidou como uma das operações mais prolíficas do setor, ao lado de outras gangues de ransomware que investem em técnicas anti-forenses. Investigações do jornalista Brian Krebs e da firma PRODAFT identificaram o líder da gangue como o russo Alexander Andreevich Yapaev, de 36 anos, conhecido pelo alias “hastalamuerte”, que antes atuava como afiliado do grupo Qilin.

Como funciona o BYOVD

O GentleKiller emprega a técnica bring your own vulnerable driver (BYOVD), na qual o atacante carrega no sistema um driver legítimo mas com falhas conhecidas para obter privilégios de kernel. Com acesso ao núcleo do sistema operacional, a ferramenta encerra os processos de antivírus e EDR, deixando a rede indefesa enquanto ocorre o roubo de dados e a criptografia dos arquivos.

Os binários do GentleKiller são protegidos pelos empacotadores comerciais Enigma e Themida e utilizam nomes de arquivo, ícones e assinaturas digitais que imitam produtos de segurança reconhecidos. Embora as assinaturas sejam roubadas e inválidas, a estratégia dificulta a detecção heurística. A ESET destaca que o Gentlemen consegue integrar novos exploits de driver em questão de dias após a divulgação pública de proof-of-concept.

Variantes e drivers explorados

O GentleKiller possui oito variantes, cada uma baseada em um driver diferente. A arquitetura modular permite trocar drivers sem alterar o código principal, agilizando a adoção de novas falhas. A tabela abaixo lista as variantes documentadas pela ESET:

Variante (produto imitado) Driver vulnerável
Kaspersky eb.sys
FACEIT Anti-Cheat nseckrnl.sys
Valorant GameDriverX64.sys
Javelin stpm_old.sys / stpm_new.sys
WatchDog dmx.sys
Network Blocker 360netmon_wfp.sys
Cleaner IMFForceDelete.sys
G11 PoisonX.sys

O driver “PoisonX.sys” já apareceu em campanhas recentes que desativaram o CrowdStrike Falcon, segundo a empresa Huntress. O escopo de alvo é amplo: 400 processos associados a 48 fabricantes, entre eles SentinelOne, Palo Alto, Sophos, Trend Micro, Bitdefender e McAfee/Trellix.

Arsenal completo de evasão

Além do GentleKiller, o Gentlemen distribui aos afiliados três ferramentas externas de EDR-killer para redundância e complexidade de atribuição: HexKiller (antes exclusivo do grupo Warlock), ThrottleBlood (ligado a MedusaLocker e DragonForce) e HavocKiller. A operação também usa o OxideHarvest, um ladrão de credenciais escrito em Rust que extrai dados de navegadores como Chrome, Edge, Firefox e Brave, adicionando mais uma camada de risco à cadeia de vazamento de credenciais que já preocupa o setor.

Os alvos são selecionados com base na configuração de endpoints FortiGate — um detalhe relevante diante do vazamento “FortiBleed”, que expôs credenciais de VPN de quase 74.000 dispositivos, e que somou-se a falhas críticas já exploradas ativamente em produtos Fortinet. O grupo já comprometeu a provedora de energia romena Oltenia e mantém uma botnet de proxy SystemBC com mais de 1.570 hosts, possivelmente vítimas corporativas.

Como reduzir o risco

  • Atualize drivers e bloqueie os vulneráveis: adicione os drivers listados acima (PoisonX.sys, eb.sys, dmx.sys e outros) ao bloqueio de drivers do Windows Defender via GPO.
  • Monitore criação de serviços de kernel: alerte sobre carregamento de drivers não assinados ou com assinatura inválida, sinal típico de BYOVD.
  • Reforce o acesso ao FortiGate: altere credenciais de VPN comprometidas pelo FortiBleed e habilite autenticação multifator.
  • Segmentação de rede: limite o movimento lateral caso o EDR seja desativado, separando servidores críticos em VLANs isoladas.
  • Backups offline testados: mantenha cópias 3-2-1 e valide a restauração periodicamente para minimizar o impacto da criptografia.

Fontes