Contas AWS espalhadas por várias equipes não podem depender da disciplina individual de cada desenvolvedor para manter o acesso sob controle. As SCPs (service control policies) e as RCPs (resource control policies) do AWS Organizations formam o perímetro de dados da organização: limitam o que identidades internas conseguem fazer e bloqueiam o que identidades de fora tentam acessar nos recursos da empresa. A ação prioritária é habilitar os dois tipos de política na organização, validar o impacto em uma OU de preparo e só depois escalar para a raiz.

O que cada política controla

SCP e RCP são controles preventivos independentes que atuam em lados opostos da avaliação de permissões. A SCP vale para os principals das contas-membro — usuários IAM e roles — e as SCPs não concedem permissões: definem apenas o teto de permissões disponíveis para cada principal, limitando o máximo que uma política de identidade ou de recurso consegue permitir. A permissão efetiva é a interseção lógica entre o que a SCP permite e o que as políticas anexadas ao principal concedem, como detalha a documentação oficial do AWS Organizations sobre SCPs: nenhum acesso é concedido por uma SCP.

A RCP opera no lado dos recursos. Ela é avaliada sempre que um principal chama um recurso autorizado de uma conta-membro, não importa de qual conta a chamada partiu — inclusive o root user de outra organização. Se um desenvolvedor anexar uma política de bucket que libere acesso amplo para uma conta desconhecida, a RCP entra na avaliação de autorização e a chamada externa é negada mesmo com a política permissiva no lugar. É esse casamento entre SCP e RCP que sustenta o perímetro de dados descrito pelo time de segurança da AWS.

SCPs e a hierarquia de contas

Toda SCP anexada a uma OU é herdada pelas OUs filhas e pelas contas abaixo dela. Um Deny em qualquer nível da hierarquia — raiz, OU intermediária ou conta — vence qualquer Allow que venha depois, e a SCP afeta até o root user da conta-membro. Por isso a ordem de implantação importa mais que a pressa: a própria AWS recomenda não anexar SCP à raiz sem testar antes, movendo contas em pequenos grupos para uma OU de preparo e observando o efeito com o simulador de políticas do IAM.

Existe uma exceção estrutural que toda equipe precisa conhecer: SCPs não afetam a conta de gerenciamento da organização. Essa conta fica fora do alcance dos guardrails de principals e, por isso, não deveria hospedar cargas de trabalho — ela serve para criar a organização, gerenciar OUs e políticas, e nada além disso. Nas contas-membro, o acesso root também merece tratamento centralizado: a AWS permite desabilitar o login root das contas-membro e executar as ações privilegiadas de root de forma central, eliminando credenciais root espalhadas pela organização. Quem já trabalha com identidade federada encontra a mesma lógica nos níveis FAL do NIST aplicados à federação de identidade.

Para afinar as políticas sem quebrar nada, o service last accessed data do IAM mostra quais serviços permitidos nunca foram usados em cada conta — insumo direto para transformar uma deny-list genérica em uma lista que reflete o uso real. Cruzar esse dado com o CloudTrail em nível de API revela permissões mortas e reduz a superfície antes de qualquer allow-list entrar em vigor.

RCPs fecham o perímetro externo

Quando as RCPs são habilitadas na organização, a política gerenciada RCPFullAWSAccess é anexada automaticamente à raiz, a cada OU e a cada conta — e não pode ser desanexada. Ela não concede nada: apenas permite que toda a avaliação passe até que você crie suas próprias RCPs com statements Deny. O modelo mental é o mesmo das SCPs, só que aplicado a recursos. Na prática, a RCP existe para restringir identidades externas à organização — principals de outras contas, de parceiros ou de atacantes — que tentam acessar recursos das contas-membro, conforme a documentação de RCPs do AWS Organizations.

O caso de uso clássico é o perímetro de identidade em S3: uma RCP com um Deny sobre s3:* que só libera chamadas cujo aws:PrincipalOrgID corresponda ao ID da organização, com exceção para serviços da AWS agindo em nome da empresa. Um segundo statement, com aws:SourceOrgID, protege contra o cenário de confused deputy, em que um serviço configurado por terceiros tenta alcançar seus dados. O guia do blog de segurança da AWS sobre estabelecer perímetro de dados traz as políticas de exemplo prontas para adaptar.

Antes de ligar a RCP na raiz, o caminho de menor risco é medir: revisar os achados de acesso externo do IAM Access Analyzer e consultar o CloudTrail central — com Athena, dá para listar as chamadas STS feitas contra seus roles por identidades de fora e comparar com a lista de parceiros conhecidos, com a mesma disciplina de sessões e credenciais que endurece tokens de acesso na nuvem no guia do NIST. Esse passo evita quebrar integração legítima de terceiros no dia do corte.

Estratégia deny-list na prática

A configuração padrão do AWS Organizations trabalha com SCPs como deny-list: tudo é permitido até que um Deny explícito bloqueie. Statements de negação exigem menos manutenção porque não precisam de atualização quando a AWS lança serviços novos, e costumam ser mais curtos — o que ajuda no limite de tamanho da política. O allow-list, em que se troca a FullAWSAccess por uma política que só permite serviços aprovados, é mais restritivo e cabe em cargas reguladas, mas exige permitir explicitamente cada ação no caminho da conta até a OU. A orientação da arquitetura de referência de segurança da AWS é combinar os dois: allow-list na raiz definindo os serviços aprovados e deny-list por OU para os guardrails corporativos, como impedir o desligamento de CloudTrail, GuardDuty e AWS Config, impedir alteração do block public access e negar regiões fora das aprovadas.

Além das políticas de autorização, o Organizations oferece políticas declarativas que definem a configuração desejada de um serviço em escala — como bloquear acesso público à internet em recursos de VPC — impostas no plano de controle do serviço, e não na camada de autorização de API. Elas completam o kit sem substituir SCP ou RCP.

Plano de implantação P1 e P2

Com as peças explicadas, a implantação segue uma ordem que minimiza risco de indisponibilidade: primeiro os controles que fecham o perímetro e protegem a telemetria, depois os refinamentos de superfície. A tabela consolida as ações em duas ondas.

Prioridade Ação Resultado esperado
P1 Habilitar SCPs e RCPs na organização e criar uma OU de preparo Teste de políticas sem risco de travar produção
P1 Bloquear a saída de contas da organização e desabilitar o login root nas contas-membro Contas permanecem dentro do perímetro de controle
P1 RCP que nega acesso a recursos S3 para principals fora da organização Perímetro de identidade contra vazamento por má configuração
P2 SCP que impede desabilitar CloudTrail, GuardDuty e AWS Config Telemetria de auditoria protegida contra desativação
P2 SCP que nega alteração do block public access em nível de conta Camada extra contra exposição acidental de dados
P2 Revisar service last accessed data antes de apertar allow-lists Menos risco de bloquear serviço em uso real

Exceções fazem parte do desenho. Parceiros de negócio podem entrar na RCP com aws:PrincipalAccount listando contas confiáveis, e contas com requisitos especiais podem morar em uma OU de exceções com SCPs próprias — o padrão recomendado pela AWS para casos de auditoria customizada. Documentar cada exceção com dono e prazo evita que o perímetro vire uma peneira silenciosa.

Para quem precisa de uma lista de verificação independente do fabricante, o benchmark de fundamentos da AWS mantido pelo CIS está na versão 7.1.0 e reúne diretrizes consensuais de configuração segura, disponíveis na página dos CIS Amazon Web Services Benchmarks — ponto de partida útil para auditorias de conta antes e depois do perímetro entrar no ar.

Os sinais de que o perímetro funciona aparecem nos logs: chamadas negadas por SCP e RCP registradas no CloudTrail, ausência de achados de acesso externo não justificado no Access Analyzer e nenhuma conta fora da organização. Sem esses três indicadores, o controle existe no papel, mas não na operação.

Fontes