O kit AiTM identificado como Green Proxy transforma o sequestro de sessões do Microsoft 365 em serviço pago: o autor aluga a ferramenta por chave de licença, o cliente dispara as iscas e a vítima entrega a sessão autenticada mesmo digitando o código de segundo fator. A análise técnica é da Raiku Solutions, publicada em 4 de novembro de 2026 após a resposta a um incidente em uma empresa chilena, com indicadores de comprometimento, regras YARA e pacotes STIX liberados em repositório público. Times que tratam SPF, DKIM e DMARC aprovados como prova de legitimidade, e código de segundo fator como barreira final, são o público mais exposto. A ação prioritária é caçar nos logs de e-mail e de proxy o padrão de conversa em duas etapas descrito abaixo e acelerar a migração de contas administrativas para autenticação resistente a phishing.
A isca em duas etapas
A entrega é construída para vencer filtros de e-mail em vez de brigá-los. No primeiro contato, chega um e-mail curto de cotação enviado por uma caixa de correio real de uma empresa comprometida: sem link e sem anexo, não existe nada para um filtro analisar. Na campanha analisada, quatro caixas de empresas japonesas em um mesmo host compartilhado foram usadas entre 30 de outubro e 1 de novembro de 2026. Se o destinatário responde, a continuação muda de remetente: um «Re:» sai de um domínio que imita uma empresa real, assinado com o DKIM próprio do atacante, de modo que SPF, DKIM e alinhamento DMARC passam normalmente.
O link da continuação começa no endpoint /oauth/authorize de uma organização legítima. Chamado com os parâmetros prompt=none e id_token_hint=dummy, o endpoint devolve um erro, mas ainda assim redireciona o navegador para o redirect_uri controlado pelo criminoso, hospedado em um site de pequena empresa invadido que apenas encaminha o visitante ao estágio seguinte. Cada salto usa um caminho único com token descartável sob o domínio do kit. O único sinal confiável restante era humano: o remetente muda no meio da conversa. Foi essa troca, percebida pela própria vítima, que gerou a denúncia e permitiu a investigação — um lembrete de que treinar pessoas para notificar mudanças de interlocutor em negociação por e-mail continua valendo mais do que qualquer pontuação de reputação de domínio.
O gate anti-análise
Antes de mostrar qualquer página falsa, o kit decide quem merece vê-la. O gate, hospedado em subdomínios do domínio yizhaojingyun[.]com, usa quatro controles. O endpoint /.verify exige uma prova de trabalho SHA-256 somada a uma pontuação de navegador: sinais como webdriver, HeadlessChrome e renderizadores de software como swiftshader e llvmpipe acumulam pontos e caracterizam automação. Aprovado, o visitante recebe um cookie de verificação válido por sete dias no domínio base. O endpoint /.detect funciona como detector de sandbox e conta elementos da página para expor ambientes de análise. O endpoint /.devtools é uma armadilha para ferramentas de desenvolvedor: registra atalhos de teclado e redimensionamentos de janela e, em seguida, esconde a página — o kit também injeta essa rotina em cada página da Microsoft que passa pelo proxy. Por fim, um captcha próprio roda em domínio e porta separados, no servidor greenproxysimpleserver[.]cc na porta 8443. Bots e sandboxes que falham nos testes terminam em páginas de sites populares como Stack Overflow e Google, sem phishing visível.
O padrão lembra o comportamento do kit Wazza, que filtrava as vítimas antes de atacar: o objetivo do gate não é apenas evadir sandbox, mas garantir que só humanos-alvo enxerguem a infraestrutura, reduzindo a exposição a analistas e takedowns. Os investigadores comparam marcadores de famílias conhecidas — Sneaky 2FA, Mamba 2FA, Tycoon2FA e um fork «Shield» de Sneaky 2FA — e nenhum casa: a hipótese de trabalho é um kit novo que reaproveita ideias que circulam no ecossistema, incluindo o captcha por prova de trabalho configurado por API com campos de desafio, nonce e dificuldade.
Fraude alugada por licença
A raiz do domínio do captcha é também a vitrine do negócio: uma página de login rotulada «Green Proxy — Login» que pede usuário, senha e chaves de licença no formato GPKEY-XXXX-XXXX-XXXX para todos os usuários, com opção de criar conta. O HTML dessa vitrine aparece idêntico em varreduras públicas de abril a novembro de 2026, com hash SHA-256 50448224e0cb3dbcee198157ad6e01f3c59b36b7fb7e43601aa9f94ed842fb6a, e pivôs sobre o logotipo apontam para um painel anterior em eargentyna[.]com, com vinte e três subdomínios emitidos entre setembro e novembro de 2025, vários com cara de código de país. A plataforma está ativa desde pelo menos setembro de 2025. Em outras palavras: quem enviava os e-mails da campanha provavelmente é um cliente da plataforma, não o autor do kit — desmontar uma campanha não desarma o fornecedor.
A trilha da botnet
A infraestrutura atual concentra-se no IP 94.26.106[.]29. Em 6 de maio de 2026, esse mesmo endereço distribuía binários da botnet Mirai, na variante marcada como «wraith», e apresentava certificado autoassinado para cnc.murrezbots[.]vip. No fim de maio, o bloco 94.26.106.0/24 trocou de provedor de anúncio; o domínio yizhaojingyun[.]com, um registro antigo reciclado, passou a apontar para o mesmo IP em agosto de 2026 e ganhou mais de cem subdomínios aleatórios em duas semanas. Como o bloco mudou de mãos, os investigadores classificam a ligação entre botnet e plataforma como possível, não provada. Para o defensor, o IP importa por outro motivo: é de lá que o proxy inicia sessão na Microsoft, então serve como filtro direto nos logs de entrada.
Como detectar e responder
| Prioridade | Sinal | Onde procurar |
|---|---|---|
| P1 | Link para /oauth/authorize com prompt=none ou id_token_hint cujo redirect_uri aponta para outro domínio | Gateway de e-mail e proxy web |
| P1 | Requisições POST para /.verify, /.detect ou /.devtools, ou acesso à porta 8443 do captcha | Logs de proxy e firewall |
| P1 | «Re:» com link de domínio sem histórico com a organização e remetente diferente do primeiro e-mail sem link | Fluxo de e-mail e caixa de denúncias |
| P2 | Entradas autenticadas originadas do IP do kit | Logs de entrada do diretório |
| P2 | Hash do painel em varreduras públicas para localizar novas vitrines | Ferramentas de threat intel |
Para bloqueio, o repositório público publicado junto com a análise traz listas de domínios em formato de feed, além de pacotes STIX e regras YARA testadas contra milhares de arquivos limpos sem falsos positivos. A recomendação prática é bloquear os domínios base incluindo todos os subdomínios: as páginas de ataque usam subdomínios novos com o nome de cada vítima, que não são publicados de propósito. Domínio que caiu hoje pode voltar amanhã, porque o ator reutiliza registros antigos comprados em lote.
Do lado estrutural, o proxy em tempo real replica a página de login da Microsoft e captura a sessão mesmo quando o segundo fator não é resistente a phishing: código por SMS, código de aplicativo e aprovação em tela chegam ao servidor criminoso e são retransmitidos na hora. A defesa indicada pelos investigadores é direta: autenticação resistente a phishing, como passkeys, derrote o modelo do relay, porque a credencial fica vinculada à origem legítima e não pode ser reaproveitada pelo proxy. É a mesma direção da onda de mudanças no mercado de identidade — a aposentadoria de SMS e voz no Microsoft Entra ID já obriga planejamento de migração. Priorize contas administrativas e de e-mail com poder de aprovar pagamentos: são as visadas por iscas de cotação. E trate MFA reutilizado após incidente como comprometido, revogando sessões e tokens com a mesma urgência da troca de senha.