A CISA adicionou três vulnerabilidades exploradas ativamente ao catálogo Known Exploited Vulnerabilities em 4 de agosto de 2026: CVE-2026-9198 no IBM Langflow (CVSS 9.8), CVE-2026-18556 no N-able N-central (CVSS 7.4) e CVE-2026-34486 no Apache Tomcat. O prazo final para correção definido pela CISA é 7 de agosto de 2026 para agências federais dos Estados Unidos, sob a diretiva BOD 26-04. As três falhas compartilham um traço perigoso: foram confirmadas em ataques reais antes da correção completa, e duas delas permitem execução remota de código sem credenciais válidas. Para empresas brasileiras, o prazo regulator não se aplica, mas a janela de risco é a mesma.

Falha crítica no IBM Langflow

O destaque técnico do lote é o CVE-2026-9198, com CVSS 9.8 e classificação CWE-94 (injeção de código). O comunicado de segurança da IBM explica o mecanismo: a vulnerabilidade combina dois endpoints da API. O primeiro, /api/v1/auto_login, emite tokens de superusuário para qualquer chamador de rede, sem autenticação. O segundo, /api/v1/validate/code, executa código Python arbitrário via exec(), inclusive decoradores, argumentos padrão e anotações avaliados no momento da definição da função.

O encadeamento é direto: o atacante obtém um token de superusuário no endpoint de auto-login e, em seguida, envia código malicioso ao endpoint de validação. O resultado é execução remota de código completa em instâncias Langflow com configuração padrão. O CVE-2026-9198 afeta todas as versões do IBM Langflow OSS de 1.0.0 a 1.10.0, e a correção exige atualização para a versão 1.10.1, lançada em julho de 2026. A IBM não oferece mitigação alternativa, conforme o boletim. Provas de conceito foram divulgadas cerca de uma semana após o patch, o que reduz o tempo de reação de quem ainda não atualizou.

N-central sofre zero-day explorado

O segundo item do KEV atinge uma plataforma de gestão usada por provedores de serviços gerenciados (MSP). A exploração do N-central começou como um zero-day em 31 de julho, segundo a N-able, que confirmou invasões reais à interface administrativa. O relato da SecurityWeek descreve o caminho do ataque: o invasor usou o servidor N-central comprometido como trampolim para alcançar controladores de domínio e servidores de backup, criou uma conta falsa de domínio chamada “veeam”, redefiniu senhas de administrador e instalou túneis da Cloudflare disfarçados de atualização da Microsoft.

A correção inicial do CVE-2026-18556 foi incompleta e os atacantes contornaram o patch. A N-able respondeu com um hotfix emitido sob o identificador CVE-2026-18577, também listado no KEV. A consequência para um MSP é proporcional à sua base de clientes: uma única credencial administrativa comprometida pode se propagar para dezenas de redes corporativas. Indicadores práticos citados pela investigação incluem um arquivo svchost.exe dentro da pasta Documents de um usuário e ferramentas de acesso remoto não autorizadas instaladas em endpoints gerenciados.

Apache Tomcat abre caminho para RCE

A terceira entrada, CVE-2026-34486 (CVSS 7.5), afeta o componente EncryptInterceptor do Apache Tomcat, um interceptador opcional que cifra mensagens entre nós de cluster. A falha surgiu como efeito colateral do patch para CVE-2026-29146, um problema de padding oracle corrigido em março de 2026. A correção moveu uma única linha de código, que inverteu o comportamento da camada de cifragem de fail-closed para fail-open.

Com o bypass ativo, quando a descriptografia de uma mensagem falha, o conteúdo controlado pelo atacante segue intacto para a camada de desserialização. Em clusters com EncryptInterceptor habilitado, isso abre caminho para execução remota de código não autenticada em todos os membros. As versões corrigidas do Apache Tomcat são 11.0.21, 10.1.54 e 9.0.117. Quem usa Tomcat em cluster deve tratar a atualização como prioridade, ainda que o EncryptInterceptor não seja a configuração padrão.

O que defender a partir de agora

As três falhas compartilham uma janela de risco curta e exploração confirmada, então a resposta deve seguir uma sequência concreta, não um roteiro genérico de patching mensal.

  1. Inventarie a exposição. Liste instâncias Langflow acessíveis pela rede, servidores N-central com a interface administrativa exposta e clusters Tomcat com EncryptInterceptor habilitado. Priorize o que tem acesso à internet.
  2. Atualize o Langflow para 1.10.1. Não existe mitigação alternativa. Se uma instância não puder ser atualizada, retire-a da rede ou coloque-a atrás de autenticação e controle de acesso de rede.
  3. Verifique o estado do N-central. Aplique o hotfix que resolve CVE-2026-18556 e CVE-2026-18577 e busque indicadores de comprometimento: contas de domínio não autorizadas, especialmente nomes de serviço reutilizados como “veeam”, senhas de administrador redefinidas recentemente e ferramentas de túnel não documentadas.
  4. Suba a versão do Tomcat. Mova clusters para 11.0.21, 10.1.54 ou 9.0.117 e confirme se o EncryptInterceptor continua necessário; se não, desative-o para reduzir a superfície.
  5. Caça a contas e ferramentas rogue. Revise usuários criados desde 31 de julho, compare os túneis em uso com o inventário autorizado e verifique execução de binários em pastas incomuns como Documents.

O histórico recente do KEV mostra que o catálogo tem sido usado como sinal de prioridade também fora do setor público. Entradas como a análise do KEV da CISA com zero-days da Microsoft e o caso do FortiSandbox adicionado ao catálogo reforçam o padrão: presença no KEV significa ataque confirmado, não risco teórico, e a janela entre disclosure e exploração em larga escala costuma ser de dias.

Fontes