A Anthropic, empresa por trás do Claude e do modelo de cibersegurança Mythos, publicou um artigo na quinta-feira (4) pedindo uma “pausa temporária global” no desenvolvimento de inteligência artificial. O motivo: os modelos de linguagem estariam próximos do autoaperfeiçoamento recursivo — o ponto em que a IA passa a criar versões melhores de si mesma sem intervenção humana. No mesmo dia, o Financial Times revelou que a empresa embutiu engenheiros na NSA para operações de cibersegurança ofensiva.
Anthropic quer pausa na IA
A proposta da Anthropic faz parte de um artigo longo que detalha o progresso do Claude em direção ao que a empresa chama de “auto-melhoria recursiva”. Segundo a empresa, mais de 80% do código incorporado à sua base desde maio de 2026 foi escrito pelo próprio Claude — um marco que sugere que a IA já contribui de forma substancial para o seu próprio desenvolvimento.
“Acreditamos que seria bom para o mundo ter a opção de travar ou pausar temporariamente o desenvolvimento da IA de ponta, para permitir que as estruturas sociais e a investigação em alinhamento possam acompanhar o ritmo do avanço da tecnologia”, declarou a Anthropic na publicação.
A empresa propõe organizar conversações com “responsáveis políticos, investigadores, sociedade civil e outras empresas de IA” para responder às questões levantadas. A pausa não seria unilateral — a Anthropic exige que todos os laboratórios bem financiados em todos os países parem nas mesmas condições, com mecanismos de verificação para impedir que agentes mal-intencionados aproveitem a interrupção.
NSA usa Mythos para ciberataques
Em paralelo ao pedido de cautela global, o Financial Times reportou que a Anthropic colocou meia dúzia de “engenheiros embarcados” dentro da Agência de Segurança Nacional dos EUA para operar o Mythos em “operações de cibersegurança ofensiva”. O modelo estaria a ser utilizado para infiltrar redes de nações como China e Irão.
Steven Murdoch, professor do University College London, questionou a coerência entre o discurso de segurança e a prática militar. “A Anthropic pode dar a impressão de ser simpática, mas a definição deles de segurança de IA é estreita. Apoiar autoridades americanas no desenvolvimento de capacidades ofensivas nunca foi algo que falaram contra”, afirmou ao The Guardian.
A revelação é particularmente surpreendente porque a Anthropic trava uma batalha judicial com o Departamento de Defesa dos EUA pelo uso das suas ferramentas. O Mythos, lançado em acesso antecipado em abril de 2026, está a ser expandido para mais de 150 organizações em 15 países.
Autoaperfeiçoamento recursivo
O conceito descrito pela Anthropic não é novo. A ideia de IA a projetar versões cada vez mais inteligentes de si mesma aparece em cenários catastróficos como o documento “AI 2027”, que imagina agentes autónomos a construir superinteligência sem supervisão humana. O que a Anthropic descreve como evidência, porém, ainda está longe desse cenário.
O Claude consegue acelerar partes do desenvolvimento — correr experiências, melhorar secções de código, propor os seus próprios experimentos — mas sempre dentro de limites estritos e confinado a tarefas de programação. Murdoch avaliou que “nada mudou fundamentalmente” para justificar a publicação do artigo, tratando-se de uma reafirmação de preocupações que a empresa já expressava.
Ainda assim, a tendência é real: a fração de código escrita por IA em laboratórios de ponta cresce rapidamente, e a capacidade dos modelos para tarefas complexas de engenharia de software avança a cada geração.
Cronologia dos eventos
- Janeiro 2025 — Anthropic anuncia o Mythos como modelo dedicado à cibersegurança
- Abril 2026 — Mythos entra em acesso antecipado para organizações selecionadas nos EUA
- Maio 2026 — Empresa revela que 80% do código interno já é gerado pelo Claude
- 4 de junho de 2026 — Artigo sobre autoaperfeiçoamento recursivo pede pausa global no desenvolvimento de IA
- 5 de junho de 2026 — Financial Times revela engenheiros da Anthropic embutidos na NSA para operações ofensivas
Reações da comunidade
A comunidade de segurança dividiu-se perante a proposta. Investigadores em alinhamento de IA receberam o pedido como um passo positivo — a Anthropic ofereceu-se para ajudar a construir os sistemas de verificação que a pausa exigiria. O Anthropic Institute deverá liderar a colaboração com outras empresas para estabelecer um quadro de referência.
Críticos apontaram uma contradição estratégica: pedir regulamentação global enquanto se fornece tecnologia ofensiva a uma agência de espionagem sugere uma tática de estabelecimento de mercado. Ao frear concorrentes com apelos à responsabilidade, a Anthropic consolida o seu acesso governamental exclusivo. A expansão do Mythos de poucas entidades americanas para 150 organizações em 15 países reforça essa leitura.
Na prática, um tratado global com inspeção e pausa obrigatória não tem precedente na história da tecnologia. Mesmo acordos de não-proliferação nuclear dependem de décadas de diplomacia e infraestrutura de verificação complexa.